terça-feira, 5 de abril de 2011

Multifacetado


                Vem me buscar. Vem no barco e sobe pelo rio, usando o cocar. Me pinta com urucum e me mostra toda a sua paz. Me marca com o carvão e me dá a bravura das mais fortes guerreiras. De macaxeira viva me alimenta, e me dá de beber o mais puro açai.
                Sem vergonha, levanta a barra das suas vestes e mostra a sua canela enquanto corre ao meu encontro. Me abraça, me dá um beijo de pai. Coloca de novo o anel no meu dedo, e faz festa quando resolvo admitir que apesar de errar eu não sou um erro.
                Na mais forte batida de samba traz a sapucai pra dentro de mim. Abre para mim aquele sorriso brasileiro e me dá aquele abraço onde as formalidades se fazem desnecessárias. Me passa a bola em um intenso jogo de futebol, e confia em mim pra fazer o gol da virada.
                Com sabedoria multifacetada me encantam sempre as Suas revelações multiculturais.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Com Você


    Depois da tempesdade, foi a Sua brisa que terminou com o meu deserto. Com cheiro de imperfeição eu me aproximei, Você não se importou. Na cachoeira do seu amor me banhei. A água gelada limpou o sangue seco da minha pele. Os raios de sol me fizeram não sentir frio, não sentir medo.


    Dias silenciosos, onde minhas lágrimas se misturaram com a Sua paz. Entre gritos e sussurros eu Te busquei, me coloquei ali, como que numa lâmina de microscopio. Passei a me ver pelos seus olhos, o reflexo de quem Você é na identidade de quem eu sou.

    Sem lâminas emocionais com as quais me cortei inúmeras vezes. Cicatrizes que contam histórias mas não causam mais dor. Dialogos internos que não geram mais nada no exterior. Apenas eu como eu mesma através de Você.

terça-feira, 1 de março de 2011

Verdade


Hoje descobri porque fiquei tanto tempo trancada fora de mim mesma. Caixa de confusão se abriu quando comecei a olhar para dentro de mim. Era fácil apenas mudar, ou não mudar, o exterior. Mudar o que está ao alcance dos olhos nunca foi um problema. Difícil sempre foi o invisível, o interno, o que os olhos humanos jamais conseguiram contemplar.

A caixa se abriu, vi meus medos, meus segredos, minhas necessidades e deformidades escapando. A vergonha de ver quem eu realmente sou só aumentou, as lágrimas rolaram. Agora como voltar atrás e fingir que nunca descobri isso em mim? Mas também como prosseguir, e com que força encarar tudo isso que veio à tona?

Apenas minha confiança em Você pode me fazer continuar. É o momento que posso escolher parar, voltar, dar as costas a verdade que Você me fez ver. É o momento que posso continuar, e recolher forças em seu amor para mudar, e caminhar. Agora me resta apenar escolher.

Eu escolho continuar, pois meu passado me ensinou que Seu amor merece meu voto de confiança. Não sei se vou conseguir, não sei até aonde posso ir, só sei que com Você eu quero ir. A verdade brilha demais, marcou meu olhar, impossível olhar tudo mais e não ver a marca daquilo que Você me falou.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O que somos

      Nós somos as canas quebradas que Ele não esmagou. Nós somos os pavios que ainda fumegam e insistem para não apagar. Nós somos daqueles que já estiveram jogados na sarjeta aos pés da esperança. Nós somos os que já acusaram e foram acusados. Nós somos aqueles que carregam a liberdade em nossos corações. Nós somos dos que não recuam, mas dos que vão em frente.


      Por algumas vezes arrastados, e algumas vezes cheios de dúvidas e medo. Nós somos do tipo que se questionam, e duvidam, e sofrem, e tem crises, porém e contudo vivemos, pois nos movemos, e somos, e falamos naquele em que a vida subexiste.

      Eu não posso ficar quieta, eu não consigo. É preciso gritar, e espalhar até que todos possam compreender. Nós somos aqueles que não vão parar, que não podem parar. Somos do tipo que teme não viver mais do que morrer. Nós somos exatamente o que precisamos ser, aonde estamos hoje agora. Aqueles que não se calam, e não vão cansar de cair e se levantar, e continuar!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quando menos é mais

     
   
      É necessário abrir mão de certas coisas em um relacionamento. Esta é uma afirmação que eu sempre escutei como conselho para fazer um relacionamento, seja de amizade ou não, dar certo. É necessário esquecer certas coisas, adiar alguns programas, repensar conceitos, uma vez ou outra mudar a agenda repentinamente, deixar algumas manias, evoluir em certas áreas, conhecer outras pessoas, abrir mão de controlar por completo o decorrer do meu dia-a-dia.


      Temos o costume de associar o abrir mão, o adiar, o mudar com perda. “Eu tenho menos porque não fiz de acordo com o meu plano inicial”, esse é o pensamento que existe dentro de nós. É justamente por este pensamento estar tão encravado na nossa mente que hoje podemos perceber os relacionamentos se tornando cada vez mais passageiros, superficiais, circunstânciais, e aí que está a verdadeira perda.

      Não nos sacrificamos mais. Só perdoamos, se perdoamos, quando somos perdoados. Não mudamos nossa rotina pelo outro que está do nosso lado, pois temos a certeza de que o mesmo não seria feito por nós, o que só mostra que a nossa atitude está sempre baseada em uma recompensa. Nosso amor se torna dependente do se sentir amado.

      “Mudar a maneira como eu penso? Nunca. Por isso só vou me relacionar com quem pensa igual a mim”. Aí morrem as revoluções, as explosões de diversidade, a possibilidade de se fazer algo novo debaixo do sol. Estamos cada vez mais caminhando em direção ao que importa para nós próprios, e somente para isso. Os relacionamentos valiosos estão se esvaindo.

      As crises vêm e nos encotramos sozinhos, não existem mais relacionamentos duradouros, e acreditamos que todos os casamentos são globais e uma hora ou outra vão acabar. Nos esquecemos de honrar, e de liberarmos bagagem para ajudarmos a carregar quem precisa de ser carregado. Não nos permitimos ser carregados por ninguém, somos muito fortes para passarmos por tal humilhação.

      Perdemos a sensação maravilhosa do que é não estar sozinho, de ter a base de relacionamentos antigos, o frescor de novos, a esperança na continuidade do caminho. Deixamos de lado o prazer de compartilhar, de ter menos aparentemente para termos mais na soma. O que é gerado em comunhão nunca irá se comparar ao nosso máximo desenvolvido sozinhos. O prazer de deixar pegadas lado a lado no chão é o prazer de criar histórias, relembrar momentos, e não temer o futuro.